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20 anos sem Tião Carreiro, por César Menotti


*Por César Menotti

Morre o homem, fica a fama, e minha fama da trabalho“…

Assim diz o verso de uma das modas gravadas por ele, Tião Carreiro.

E assim se cumpriu, ele deixou um legado do qual a música caipira ainda não conseguiu se desvincular. Seus discípulos estão aí, dando continuidade a sua história, e como disse Zé Mulato, quase sempre imitando Tião Carreiro.

Meu pai conheceu o Tião na padaria dos artistas, na boca do lixo em São Paulo, local que ainda hoje é frequentado pelos violeiros. O homem Tião Carreiro tocou viola a vida inteira por amor a música, e o artista Tião Carreiro também.

Foi notável sua trajetória nesta terra. Fez da viola muito mais do que seu cartão de visita, fez da viola a cara do Brasil, esse nosso Brasil sertanejo.

Quando eu era pequeno e ouvia meu pai contar as histórias de quando encontrava o amigo Tião Carreiro, eu ficava interessado, queria saber de tudo. Naquela época eu jamais iria imaginar que aquele homem iria influenciar a base da minha identidade musical.

Infelizmente não conheci pessoalmente o rei do pagode. Na minha adolescência, fui na casa onde ele morava visitar sua viúva, D.Nair, e ali descobri que realmente o homem Tião Carreiro não existia mais.

Mas tocando uma de suas violas na cozinha daquela casa, aquela viola vermelha da música, que pertenceu a Raul Torres, percebi que o artista Tião Carreiro ainda vivia e na verdade vive até hoje, vinte anos após sua partida, inclusive nos meus shows quando canto ao lado do meu irmão Fabiano “Pagode em Brasília”, junto com uma multidão de jovens que vibram e cantam todos os versos.

Enquanto isso eu fico pensando que realmente morre o homem, fica a fama, e sua fama da trabalho.

E aqui fica registrada minha homenagem a esse homem, como disse Lourival dos Santos, um astro da constelação divina chamado Tião Carreiro.

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*César Menotti, 31 anos, da dupla César Menotti e Fabiano, toca viola desde os 13. Escreveu a convite do blog, no dia em que a morte de Tião Carreiro completa 20 anos.

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Abaixo, segue a canção “A Viola e o Violeiro”, da qual Menotti retirou a citação que abre seu texto.

18 anos sem Tião Carreiro


Nesse sábado, completa-se 18 anos da morte de Tião Carreiro.

No início do ano, fiz uma postagem sobre Tião Carreiro e Pardinho, e vou repetir parte dela hoje.

Trata-se de um áudio raro de uma entrevista dada por Tião Carreiro e Pardinho a uma rádio. Eu editei o arquivo e tirei as músicas, para que ficassem só as histórias contadas por ele.

Na entrevista, eles falam como se conheceram, como a dupla foi formada, e Tião conta algumas curiosidades a respeito de vários sucessos escritos por ele.

O áudio pode ser conferido abaixo.

[uolmais type=”audio” ]http://mais.uol.com.br/view/12181885[/uolmais]

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Uma dica: aos internautas que se utilizam de torrent para baixar arquivos na internet, há torrent disponível com toda a discografia de Tião Carreiro, canções gravadas por ele ao lado de Pardinho e também de outros parceiros. São 2 gigas só de músicas dele.

O torrent pode ser baixado aqui.

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Bom mesmo foi ver, na tarde desse sábado, o termo #TiãoCarreiroEterno entre os mais comentados do Twitter.

Entrevista: João Carreiro e Capataz


Eles já foram tema de diversas postagens aqui, que tentaram mostrar uma outra linha de música sertaneja que também conquista público novo, baseada na utilização frequente da viola caipira.

João Carreiro, de 28 anos, e Capataz, de 32, misturaram a moda de viola a arranjos de rock, em uma tentativa de apresentar algo novo. A influência do rock na formacão musical de ambos é praticamente nula, a mistura foi apenas uma sacada que acabou dando certo.

Por opção, os dois cantores falam no linguajar caipira e cantam com erros de português, por achar que assim a música caipira estará representada de uma melhor forma.

São elogiados por diversos profissionais de dentro e de fora do gênero, por apostarem em algo diferente, distante da ideia “pop” que se tenta colar ao sertanejo.

Fãs e defensores da música de Tião Carreiro, João Carreiro e Capataz lançaram recentemente a canção “Roqueirinha”, que foi tão elogiada quanto criticada, justamente por se tratar de um rock, e não de uma moda de viola, como muitos esperavam deles.

Aos que não acompanham a música sertaneja e estão lendo o esse texto, fica aqui o registro de que a dupla é conhecida como “Os brutos do sertanejo”.

Faltava, aqui, uma entrevista com eles.

Estive com a dupla ontem, durante um show em Campinas-SP, e os pontos mais interessantes da conversa podem ser conferidos abaixo.

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Vocês fazem parte de uma nova geração de duplas, também começaram a tocar durante a faculdade, mas escolheram seguir por um estilo diferente de música, com mais referências aos pagodes de viola e ao estilo do Tião Carreiro, algo pouco comum entre as duplas da nova geração…

João Carreiro: A gente nunca planejou fazer algo de um jeito ou de outro, a gente foi fazendo o que gosta. Na realidade, logo no nosso segundo disco, nós já colocamos uma pegada pop rock que causou espanto no pessoal da viola caipira. Dentro da companheirada nossa de viola, o pessoal não gostou, então a gente também desagradou. O nosso som, querendo ou não, é o da viola caipira mais moderno. O que não muda na gente é o jeito de cantar, o jeito de cantar que vem do Tião Carreiro. Se eu cantar um rock, um reggae ou um samba, meu jeito de cantar vai ser sempre esse.

Colocar mais guitarra e fazer arranjos mais pesados vem de alguma outra influência de vocês? Vocês chegaram até a fazer uma regravação de “Exagerado”, do Cazuza.

João Carreiro: Nada, influência de nada. Nunca ouvi rock, só sertanejão mesmo. A mistura do poprock foi uma tentativa de por uma coisa nova e o negócio acabou dando certo. A única coisa que eu posso dizer que ouço fora desse nosso meio, é Raul Seixas. Então se você imaginar uma mistura de Tião Carreiro com Raul Seixas, a gente tá no meio.

Falando do meu lado de compositor, eu abri meu leque pra ter esse campo maior de composição pra não ficar bitolado.

Vocês acham que existe alguma chance de se formar um movimento com duplas, que faça o estilo de vocês, e que consiga conquistar grande parte desse mercado sertanejo de hoje, com o novo público de classe média e classe alta?

João Carreiro: Olha, que acho que sim, já tá até pegando. É difícil pegar o topo da pirâmide, esse topo é difícil mesmo, com a classe mais alta, com programas de TV mais elitizados. Só que o pessoal de faculdade e de boteco toca demais a gente. A gente tem um público muito fiel sem tocar em rádio, pois se você parar pra ver, a gente tem dificuldade de tocar em rádio FM, mesmo nos dias de hoje. Voz grave você não vê no mercado, não tem abertura, então é mais difícil.

Mas tocar em rádio grande hoje é mais questão de investimento…

Capataz: Sim, tem o poder financeiro, mas isso a gente não faz, não saímos comprando um monte de rádio aí pra enfiar nossa música goela abaixo. Nada contra quem faz, nada mesmo, todo mundo tem que correr atrás do seu trabalho e fazer do seu jeito, mas é que o que entra pra gente, a gente guarda, não gasta nisso não. Além do mais, nosso tipo de música não adianta forçar. Ou o caboclo gosta de viola ou não adianta.

Mesmo com esse estilo de tocar moda de viola com arranjos mais pesados, o maior sucesso de vocês é “Bruto, rústico e sistemático”, uma moda no estilo mais tradicional do Tião Carreiro. E assim como falavam de algumas canções do Tião, dizem que essa de vocês música é grosseira, preconceituosa, seja contra a mulher ou contra homossexual. Como vocês respondem a isso?

Capataz: Eu aprendi isso com o João Carreiro nessa nossa estrada. O compositor cria um personagem e a partir daí faz a história. Não é o João Carreiro falando, é um homem bruto falando, não tem que ficar explicando isso ou aquilo, isso é música, composição, o trabalho do compositor é assim.

João Carreiro: Eu falo mal do cara que tem tatuagem, mas eu também tenho tatuagem. Falo mal de cabeludo, mas sou cabeludo. Falo que minha filha caçula arrumou um namorado, mas minha filha tem 3 anos, sabe nem o que é isso. Deu pra entender que não tem nada a ver uma coisa com a outra? Falo de gay, mas olha só, canto até com um viado do meu lado, que é o Capataz.

Quem fala essas coisas não presta atenção. É que nem a nossa música nova, que um monte de gente se espantou por ser um rock, mas não parou pra entender.

A música é um rock e fala da sua paixão por uma roqueira, mas a viola não apareceu…

João Carreiro: É, é essa a história. E pessoal queria que eu falasse que tô apaixonado numa roqueirinha como, cantando uma moda de viola tradicional? Não. Eu fiz uma música sertaneja, só que em rock, justamente por causa da história. Cantada do meu jeito, composta do meu jeito, mas tocada de acordo com o que tem na música. Não tem que ficar preso sempre a uma coisa só.

Eu tinha curiosidade em ver o Tião Carreiro vivo hoje, pra ver o que ele ia falar de tudo isso que tá acontecendo e o que ele estaria gravando. O Tião gravou moda de viola, bolero, tango, samba e romântico, mesmo assim, nunca deixou e nem vai deixar de ser o maior violeiro que o Brasil já teve. Se o Tião fez isso, por que a gente não vai fazer?

Das várias fases da carreira do Tião Carreiro, você tem alguma preferida?

O Tião são várias coisas, né. Tem pro cara que gosta de moda bruta, pro que gosta de romântico, e eu gosto bastante das modas, se deixar a gente senta e canta cinco horas só de Tião, é o que a gente gosta. Se fosse pra falar de uma música específica dele que me agrada muito, é uma da fase romântica dele, chamada “Vim dizer adeus”, que já tinha outra estrutura de arranjo, já era bem mais apaixonada.

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Além de “Roqueirinha”, as canções “A melhor do Brasil”, gravada ao lado de João Neto e Frederico, e “É pra cabá”, são as músicas mais tocadas da dupla hoje nas rádios.

O “Carreiro” utilizado por João é em homenagem ao Tião.

Ah, Domingo…[43]


Antes de tudo, aproveito para anunciar que nos próximos dias, conto uma novidade muito boa envolvendo o nome de Tião Carreiro.

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Algo que aproxima todas as gerações da música sertaneja, é o fato de Tião Carreiro sempre ter sido lembrado.

Todas as duplas, de todas as épocas, já cantaram ao menos uma música do Tião Carreiro em seus shows ou em seus discos, e isso inclui a geração atual de cantores.

O que complica um pouco, no entanto, é que raramente se regrava uma canção inteira, criou-se o costume de pegar um ou dois versos e juntar com outros versos de outras canções.

Uma das músicas mais atemporais já compostas pelo Tião, “A vaca já foi pro brejo”, chegou aos ouvidos dos jovens de hoje através de Jorge e Mateus, que regravaram um trecho dela.

O que impressiona na canção, é que ela consegue ser atual do começo ao fim, e ao que tudo indica, seguirá anos e anos fazendo todo o sentido.

O vídeo abaixo, com a música completa, traz justamente essa música. Segue a letra junto, para quem quiser acompanhar.

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A vaca já foi pro brejo
(Tião Carreiro/Lourival dos Santos/Vicente P. Machado)

Mundo velho está perdido
Já não endireita mais
Os filhos de hoje em dia já não obedece os pais
É o começo do fim
Já estou vendo sinais
Metade da mocidade estão virando marginais
É um bando de serpente
Os mocinhos vão na frente, as mocinhas vão atrás

Pobre pai e pobre mãe
Morrendo de trabalhar
Deixa o coro no serviço pra fazer filho estudar
Compra carro a prestação
Para o filho passear
Os filhos vivem rodando fazendo pneu cantar
Ouvi um filho dizer
O meu pai tem que gemer, não mandei ninguém casar

O filho parece rei
Filha parece rainha
Eles que mandam na casa e ninguém tira farinha
Manda a mãe calar a boca
Coitada fica quietinha
O pai é um zero à esquerda, é um trem fora da linha
Cantando agora eu falo
Terreiro que não tem galo, quem canta é frango e franguinha

Pra ver a filha formada
Um grande amigo meu
O pão que o diabo amassou o pobre homem comeu
Quando a filha se formou
Foi só desgosto que deu
Ela disse assim pro pai: “quem vai embora sou eu”
Pobre pai banhado em pranto
O seu desgosto foi tanto que o pobre velho morreu

Meu mestre é Deus nas alturas
O mundo é meu colégio
Eu sei criticar cantando, Deus me deu o privilégio
Mato a cobra e mostro o pau
Eu mato e não apedrejo
Dragão de sete cabeças também mato e não alejo
Estamos no fim do respeito
Mundo velho não tem jeito, a vaca já foi pro brejo