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Ralf: sobre SMD, pirataria e internet


Quando o assuntos SOPA, gravadoras e internet surgiu com força no mês passado, uma das primeiras pessoas de quem me lembrei foi o Ralf, do Chrystian e Ralf.

Dois anos atrás, fiz uma entrevista na qual ele já previa uma crise aguda dessas empresas com medidas desesperadas, ocasionada principalmente por não aceitarem mudanças na estrutura da venda de músicas no mundo, mesmo com a internet dizendo que o antigo modelo não teria vida longa.

Ralf criou, em 2005, o SMD, que resumindo em poucas palavras, é um CD comum, mas mais barato por utilizar menos material (o CD como a gente conhece gasta mais material metálico do que precisa).

Com o SMD (e o SMDV, equivalente ao DVD), ele paga impostos como qualquer outro produto, mas o baixo custo de fabricação faz com que o produto possa ser vendido, em média, a R$ 5, competindo com o camelô e se adequando a realidade do brasileiro.

Mas se parece tão bom assim, por que as gravadoras não o adotam?

Foi justamente sobre isso que conversei com Ralf dias atrás.

O seu projeto SMD e SMVD é comprovadamente mais rentável e mais eficiente no combate à pirataria. Por que as gravadoras não o adotam?

Olha, bicho… não quero parecer ingênuo, mas… sei lá. Os caras sempre se acostumaram a ter o domínio de tudo. Tudo o que é feito está na asa dos caras, e há uma dificuldade imensa em aceitar que os produtos que dão dinheiro pra eles vão ser comercializados com uma criação de alguém de fora.

Com o SMD eles ganhariam muito mais, mas como a ideia não partiu deles, parece que há uma barreira. Sempre foram acostumados a comandar tudo, ditar tudo o que seria feito. Aceitar algo de fora agora parece bem complicado.

Em 2010, quando a gente conversou sobre esse mesmo assunto, você disse que a situação das gravadoras iria piorar demais justamente por não conseguirem achar uma alternativa ao formato do CD. A venda de música digital deu um certo respiro, mas não vai salvar o mercado. O que mudou de dois anos pra cá?

Não mudou nada. Na verdade, nunca mudou nada. A internet tá deixando os caras malucos, mas eles não entenderam que ela não vai conseguir substituir algo: o produto físico. Você pode baixar quantos discos quiser, mas o CD na mão não tem como ser substituído. A música digital também só dá uma disfarçada na situação. No iTunes, são praticamente 2 reais por música. Onde tá a vantagem? Continua a mesma coisa.

As gravadoras seguem não aceitando diminuir o valor achando que o lucro vai cair, então é só uma sensação de que as coisas estão melhorando com a música digital. A realidade é que não estão. Alternativa para o CD há sim, o SMD é, mas o problema é aceitarem essa realidade.

Mas com a música no computador, o CD não vai se tornar artigo apenas para fãs?

Não. Ele se torna artigo de luxo por causa do preço, vinte, trinta reais é um absurdo. Aí o cara vai baixar na internet mesmo. Em 2005, no primeiro projeto que a gente lançou em SMD, o Chrystian & Ralf vendeu 200 mil cópias em 8 dias. Quem vende isso em um período tão curto? Conhece alguém?

Meu disco custa R$5, a pessoa compra onde quiser, paga cincão e tá com um produto de qualidade e, principalmente, com o áudio na mais alta qualidade possível. E só pra lembrar, o SMD é um negocio bom pro artista não só porque combate à pirataria, mas também porque dá lucro, é rentável.

Rentável quanto? Como se ganha dinheiro?

O SMD sai do pino por 90 centavos. Com a capinha, vai pra 1,40. Ou seja, você tem seu SMD na mão por 1,40. Depois, bicho, você faz o que quiser com ele, desde que não passe de 7 reais, esse é o combinado. Os artistas já conhecidos preferem cobrar 5, e os independentes, 7. Só que se você quiser vender por 2 reais, você vai ter lucro. Por 1,50, também vai ter. A vantagem é que ele derruba o pirata. Se o pirata for de 5 pra 3, eu também vou. Se for pra dois, eu também vou. Se baixar mais, a pirataria perde o sentido porque não vai valer a pena ficar copiando se tem um produto original praticamente do mesmo preço.

De acordo com o que vem sendo publicado na imprensa, há chances de, enfim, os impostos sobre CD’s e DVD’s serem retirados. Isso não vai aliviar um pouco o preço dos produtos?

Vai… mas vai baixar de 30 pra quanto? Pra 20? De 20 pra 15? Quem me garante que se o imposto cair, os lojistas ou as gravadoras não vão querer aumentar o lucro e deixar de repassar a isenção pro consumidor?

E outra, bicho, se os impostos caírem, o valor do meu produto cai também. Eu pago imposto, todos, como qualquer outro produto. Se tirarem os impostos, o SMD vai ficar mais barato ainda.

Com quase 7 anos já no mercado, você considera bem sucedido o negócio “SMD”?

Considero, sem dúvida. Mais de 10 mil bandas fazem o uso do SMD. Temos o Arnaldo Antunes, o Zeca Baleiro, temos artistas do Japão, da Califórnia e de vários outros cantos do mundo. O escritório fecha de 20 a 25 discos por semana.

Por que nenhum grande sertanejo adotou o produto ainda?

Tem o fato de os grandes estarem em gravadoras, né, mas a questão não é só essa. No Brasil, não se sabe trabalhar com centavos. Tem quem ache que vender por 5 é ganhar pouco demais, tem que vender com o preço lá em cima. Só que não pensam que qualquer sertanejo de nome hoje vende, facilmente, uns cinco mil SMD’s por show, é só fazer o teste. Calcula aí e vê se vale a pena. Com esse lance de distribuir CD de graça e mandar baixar na internet, esqueceram que dá pra ganhar dinheiro vendendo. Com o tempo o pessoal vai perceber.

Mas você tentou convencer algum amigo seu a mudar pro SMD?

Essa não é minha função, mas já cheguei a conversar. Posso te contar uma história sem citar nomes. Tem uma dupla muito famosa que viu meu disco, analisou e viu que a ideia era realmente boa. O cara chegou pro Chrystian e perguntou: “toda vez que eu vender um, o Ralf ganha algo”? Meu irmão respondeu que sim, afinal a patente é minha. Agora você entende a mentalidade? Tem coisa que é complicada…

Você não acredita mesmo que a internet possa acabar com o produto físico ou você está defendendo seu produto?

Olha, cara, sinceramente. Eu posso estar sendo muito ignorante, mas eu não vejo isso. Aliás, se alguém criar alguma coisa genial que faca a internet substituir o produto físico, eu vou ser o primeiro a acatar. Mas não rola. Como é que eu vou no programa de televisão lançar meu novo trabalho se não existir mais o físico? Vou dar meu site no ar? Vou me gabar que tive sei lá quantos downloads, mas vou provar como? Alguém vai controlar?

Há mudanças que não vão acontecer. O compositor, por exemplo, precisa receber. Se ele não receber mais, ele vai procurar outro rumo, e a gente então vai cantar o que? Eu entendo toda essa loucura da internet e acho completamente errado quem olha pra ela como uma adversária. Ela não é, ela vem é mostrando como as coisas precisam ser alteradas. Quem não quer entender, fica pra trás mesmo.

O quanto vale um CD?


Voltando a um assunto já discutido por aqui.

Não sei se algum de vocês já tem em mãos, mas a versão promocional do novo CD de Fernando e Sorocaba, “Bola de Cristal”, vem com algumas faixas bônus (se não estou enganado, não é a primeira vez que eles fazem isso).

Um desses bônus é a música “Barraco”, da Thaeme Marioto, cantora que venceu uma das edições do “Ídolos”, e hoje é empresariada pelo Sorocaba (quem quiser ouvir, a música está no final dessa postagem).

Como o CD em loja não vende mais mesmo, grande parte do público vai conhecer o trabalho novo junto com esses “extras”.

É exatamente o que alguns sites de download fazem, colocando duas ou três músicas de uma dupla nova dentro do arquivo de outros CD’s, com o intuito de divulgar esses novos artistas.

Por essa prática adotada pela dupla, fica visível que o CD não é nada mais que um simples meio de divulgação, apenas mais um, longe de ser o objetivo final. E o exemplo vem de uma dupla que está no auge.

Trata-se de só mais um exemplo de que a busca por uma fórmula genial, um acerto nunca feito antes, ou uma padronização quase sempre inancalçável, não se justifica.

Se um CD trouxer metade de música de estúdio, metade ao vivo, provavelmente vão surgir críticas de quem trabalha no meio.

Para o público, que se preocupa exclusivamente com música, não faz mais a menor diferença. Isso é só um exemplo.

O que conta negativamente para o trabalho uniforme é que se ele não agradar, não há o que o salve. Se já não há mais a necessidade de um padrão (e não há), insistir nele pode ser um equívoco que venha a prejudicar muito uma carreira.

O primeiro CD de Jorge e Mateus, aquele gravado na garagem, tinha de regravação do Fágner até Gian e Giovani, passando por lado B de João Paulo e Daniel.

O projeto “Palavras de Amor”, de César Menotti e Fabiano, tinha Erasmo Carlos, Padre Marcelo Rossi e Cogumelo Plutão.

As misturas não eram muito lógicas, mas os repertórios tiveram apelo suficiente para mudar a vida de ambas as duplas, apelo que poucos discos tiveram nesses últimos anos.

Se apenas 3 ou 4 músicas serão trabalhadas nas rádios e tocadas na televisão, por que não usar todo o espaço restante do disco para fazer algo diferente?

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Na mesma tecla…


Só para dividir com vocês uma notícia publicada ontem, pela Folha.

Em 2010, a apreensão de CD’s piratas subiu 42% em relação ao ano anterior.

Em números reais, foram confiscados 1,6 milhão de CD’s piratas, entre musicais e de computador, ao longo de 730 operações realizadas pelas autoridades.

A matéria também traz alguns dados que mostram como o mercado poderia melhorar com a redução da pirataria.

Mais uma vez, a conversa de sempre, que fica mais constrangedora a cada ano que passa.

A matéria pode ser lida aqui.

Os CD's promocionais


A ascensão do sertanejo nesses últimos anos, e acentuada em 2010, não tem méritos apenas musicais.

Mesmo dentro das grandes gravadoras, as duplas tomaram para si o confronto com a pirataria, e isso foi tão importante quanto a renovação do estilo. Se não houvesse uma nova postura dos artistas, o novo sertanejo não chegaria tão longe, independentemente de se fazer uma música nova e comercialmente interessante.

Se os piratas vendiam por R$ 3, os sertanejos resolveram distribuir os discos gratuitamente.

E assim, a pirataria de discos afundou, já que o sertanejo sempre foi o grande mercado dos piratas.

No ano passado, 2009, algumas duplas chegaram a distribuir mais de 1 milhão de CD’s cada. Nesse ano, há duplas que já chegaram a 1,5 milhão. Há artistas que não concordam com a prática, mas são minoria.

Um milhão de discos significa cerca de R$ 500 mil em investimento. Alto, mas levando em conta que um dupla no topo cobra R$ 150 mil em um show, o investimento torna-se praticável. São os chamados “CD’s promocionais”, com capinha de papel e sem encarte.

Uma empresa de duplicação de discos em São Paulo chega a produzir quase 2 milhões de discos por mês. Um CD único sai por volta de 80 centavos, mas com o número de cópias crescendo, o preço diminui, e chega a atingir a casa dos 50 centavos.

A ideia partiu do mercado musical nordestino, sempre a frente no que diz respeito a formas alternativas de divulgação.

As gravadoras sabem de tudo que acontece e podem até não concordar, mas têm consciência de que se trata da única forma de divulgação que realmente vem dando certo hoje.

Não é de bom tom que os cantores e empresários falem sobre isso, afinal, poderia soar como um desrespeito a essas gravadoras, que são parceiras, mas a prática é feita abertamente e a distribuição acontece em todas as festas do país.

Mesmo que haja quem discorde dessa distribuição, dizendo que ela desvaloriza o trabalho do artista, esse foi o caminho achado também por duplas menores, com o intuito de fugir do jabá das rádios. Em vez de dar o que não tem para tocar por um mês em uma rádio grande, gasta-se em duplicação de discos, que são entregues em portas de faculdade, bilheteria de rodeios ou em qualquer outra festa sertaneja.

Do que se chama de “novo sertanejo”, o rompimento com o padrão convencional de divulgação foi um dos fatores fundamentais para o sucesso do gênero.

A pirataria que fez bem


O UOL Notícias pediu que os blogueiros do UOL fizessem um texto abordando um assunto importante que marcou a última década, cada um escrevendo sobre sua área de atuação.

Meu texto segue abaixo.

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A pirataria que fez bem

Há uma lista enorme e bastante divulgada de consequências negativas que a pirataria trouxe para o meio musical, sem contar o fato de que ela é crime previsto por lei.

Compositores, editoras e gravadoras foram prejudicados.

No entanto, por mais politicamente incorreto que seja dizer isso, a música sertaneja deve muito à pirataria. Talvez mais até do que se imagina.

Ainda na década de 1990, os piratas já tinham sua parcela de importância, que pôde ser comprovada no momento em que começaram a lançar discos antes mesmo das gravadoras distribuírem para as lojas.

No entanto, foi nos anos 2000 que, pelo barateamento na produção de um CD pirata, houve uma ascensão incontrolável desse mercado paralelo.

O disco mais importante para os últimos 10 anos foi “Bruno e Marrone – Acústico”, projeto que teve início em 1999.

O trabalho não foi um lance de gênio de nenhum artista ou gravadora. Após uma apresentação em uma rádio de Uberlândia, o áudio foi parar nas mãos dos piratas. Nessa apresentação, a dupla cantava diversos sucessos sertanejos.

O CD com essas músicas teve tanta repercussão que a dupla gravou um álbum no mesmo formato. Com ele, o país passou a conhecer uma das maiores promessas da música sertaneja até então.

Já havia ficado impossível competir com o poder de distribuição dos piratas, o que foi ocasionando o fechamento da imensa maioria das lojas de discos por todo o Brasil.

Apesar de bradarem contra a pirataria de discos, os sertanejos já haviam assimilado muito bem a importância dessa prática.

O principal produto vindo desse meio foi Eduardo Costa. Como todo mundo sabe, havia uma rejeição imensa com ele pelo fato de cantar parecido com o Zezé di Camargo. Tamanha era a semelhança, que seus primeiros discos, gravados em uma qualidade muito baixa, foram vendidos como “Zezé di Camargo Acústico”.

Como comentado aqui em uma matéria no começo do ano, ele era considero anti-mercado. Cantava sozinho, gritava demais, apostava em um estilo  musical considerado ultrapassado e carregava essa “acusação” de simples imitador.

E sem nenhuma mídia, ele deu certo.

Lembro que quando a Universal o contratou e lançou seu primeiro DVD, era missão difícil encontrar o trabalho nos camelôs, de tanta saída que tinha. Ele não era só um cantor do povo, mas sim uma cria do povo.

Outro disco que andou sozinho pelas mãos dos piratas foi “Matogrosso e Mathias – 25 anos”, um CD acústico que trazia os grandes sucessos da dupla, que apesar de toda sua importância para a música sertaneja, já não recebia investimentos de gravadoras.

A repercussão do trabalho foi tão positiva que marcou uma das melhores épocas em relação a dinheiro para os cantores, já que o número de apresentações aumentou e a estrutura do show era pequena, pelo fato de ser acústico.

Mesmo com certo grau de crueldade, a música sertaneja, hoje, não seria o que é se não fosse a pirataria.

Até mesmo Luan Santana, hoje amparado por toda a estrutura da Som Livre, rodou o país pelas barraquinhas de CD’s, apesar de ser de uma geração que pegou uma internet já bastante desenvolvida.

Internet que, por sua vez, foi acabando com os piratas.

Mesmo com todo o mal que fez para o mercado fonográfico, a pirataria foi fundamental para o crescimento contínuo da música sertaneja. Se nos anos 1990, as duplas estouraram sob investimento das gravadoras, dez anos depois foi a vez dos piratas cuidarem delas.

É ruim, lamentável e até vergonhoso que o país tenha deixado chegar a esse ponto, mas a realidade é que a última década, para a música sertaneja, foi a década da pirataria.