O “hit de carnaval” nosso de cada dia

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Esperei o fim do carnaval pra poder escrever com mais certeza a respeito de um assunto que me ocorreu alguns meses atrás.

Passamos por mais uma festa sem o “hit do carnaval”. Houve “Que tiro foi esse?”, mais uma brincadeira viral, uma frase forte, do que um sucesso musical. Não fosse esse único suspiro, o carnaval de 2018 teria passado batido musicalmente.

Uns forçaram a barra aqui, outros escritórios tentaram inventar um suposto hit ali, mas não teve jogo.

É importante dizer, também, que a maior parte dos artistas tirou o corpo fora dessa competição. Até mesmo os que tentaram algo, como Safadão ao gravar “Psiquiatra do bumbum” com Léo Santana, não entraram naquele desespero comum à época.

Ao que tudo indica, torrar mundos e fundos para ter a música mais tocada por quatro dias saiu de moda.

Parece uma boa mudança? Sim, mas não por bons motivos. Aparentemente, passamos a buscar o “hit do carnaval” não só em fevereiro, mas em todos os meses do ano.

A meu ver, isso é resultado da recém-compreendida cultura do “single”. De uns anos pra cá, praticamente todos os artistas grandes entenderam que não adianta mais lançar discos cheios um atrás do outro. O melhor negócio é apostar em uma música, insistir, e depois de alguns meses apostar em outra.

Essa cultura, que eu já mesmo defendi aqui outras vezes, tem apresentado um efeito colateral estranho. Parece que vivemos, durante todos os meses do ano, aquele desespero pra acertar o hit como se estivéssemos às vésperas do carnaval.

Passei quase uma tarde toda, no início do ano, ouvindo as playlists do Spotify. Usei o aplicativo na TV pra aproveitar o som mais alto.

A cada música que mudava, a arte de divulgação do single mudava. E isso se repetiu por 100, 200 vezes.

Senti algo estranho, era quase uma televisão de cachorro. Uma competição pra ver quem tem a música com maior apelo, a melhor foto, a melhor arte, quem sorri melhor, quem consegue prender mais atenção.

E aí você vai estendendo a situação, lembrando que a briga também é pra ver quem gasta mais no YouTube, mesmo o retorno seja em views de países que não entendem português, quem bate um trilhão de visualizações em menor tempo e, claro, quem divulga melhor que bateu algum recorde que vai ser quebrado daqui alguns dias.

Alguém consegue ver, realmente, essa situação como positiva?

Isso impacta no desempenho da música sertaneja como um todo, sem nem entrar naquele papo chato de qualidade.

O duelo entre “o que o mercado quer” e “o que eu acho bom gravar” sempre vai existir, mas o primeiro está começando a levar vantagem demais. Não à toa, o gênero se assustou, no ano passado, com o crescimento de outros estilos musicais.

Não sou da turma dos alarmistas que acha que o sertanejo está em crise, mas acho que não dói tomar certos cuidados.

Deixo abaixo uma música que muitos devem conhecer, ainda que não seja sertaneja. É uma canção de 2001 dos Titãs, “A melhor banda de todos os tempos da última semana”. A letra traz várias críticas que praticamente nos obriga a vestir a carapuça.

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