Na trilha de Tião Carreiro

Enquanto os jovens consomem cada vez mais música sertaneja, fazendo com que diversas duplas tentem agradá-los cada vez mais, acaba acontecendo certo distanciamento de grande parcela do público, aquele de classes mais baixas, tradicionalmente o público de música sertaneja.

É essa brecha que alguns artistas miram, e esse assunto vai ser tratado por aqui ao longo de alguns textos.

No de hoje, um estilo que vem crescendo lentamente, e que traz consigo a presença constante da tradicional viola caipira e a influência dos pagodes de viola.

Não se trata exclusivamente de uma tentativa de defender a cultura ou algo do gênero, pois a visão é tão comercial quanto qualquer outra. A diferença é que o caminho seguido faz questão de não se desprender do que é do passado, o que pode vir a funcionar com um público bastante abrangente.

A aposta é em um estilo mais popular, mais de massa, que tem a intenção de ser aceito também pelas pessoas que não compraram e não vão comprar o “novo sertanejo”.

A dupla João Carreiro e Capataz, por exemplo, já não é mais uma novidade. Apesar de os grandes centros ainda não adotarem a dupla como de primeiro escalão, os interiores do Brasil já a  coloca em patamares mais elevados.

Os cantores levaram a frente o apelido que receberam de “brutos”, termo que apesar de não ter sido usado por Tião Carreiro, define grande parte de suas composições machistas ou de teor intolerante, encaradas sempre com bom humor por quem as ouvia.

O estilo da dupla mantém o teor das letras e o ritmo do pagode de viola, mas quase sempre com um arranjo mais pesado, com guitarra e bateria.

Em uma matéria do “Estadão” de setembro, que falava sobre João Carreiro e Capataz, o produtor Carlos Miranda, conhecido por muita gente por sua participação de jurado em programas do SBT, deu a seguinte declaração sobre o trabalho da dupla:

“É um milhão de vezes mais interessante do que todas as duplas sertanejas ditas universitárias. Eles estão na contramão. Sabem usar a raiz muito bem e ao mesmo tempo modernizam com uma pegada forte.”

A visão, concordando ou não com ela, parte de alguém que não vive o ambiente sertanejo e é formado no universo pop/rock, acostumado a ver o sobe e desce de estilos que atingem em cheio os jovens, como faz a música sertaneja hoje.

Quem vem na cola, após um bom tempo sumidos, são os irmãos Mayck e Lyan, que agora sob investimento e amparados pela EMI, vem com o intuito, enfim, de disputar espaço no atual mercado, e não ficar apenas como dupla tocadora de moda antiga, como se fez a imagem dos rapazes enquanto personagens do programa do Raul Gil.

Apesar de o CD/DVD novo trazer diversas regravações de pagodes, um estilo muito semelhante ao de João Carreiro e Capataz, mais pesado, foi adotado. Por causa do tom da voz, muito baixo, o estilo ficou mais parecido ainda, como pode ser conferido na música “Pede pra voltar”, publicada ao final desse texto.

A primeira faixa desse novo trabalho é uma regravação de Zé Mulato e Cassiano, “Sangue Novo”, que traz algumas frases “proféticas”, que são, no fundo, um tipo de provocação muito comum nas letras de pagodes de viola, mas que acabaram com o tempo mostrando que tinham um fundo de verdade.

“Quem apostou na derrota de ver a viola morrer/ Hoje foge igual coelho e vai voltar de joelho/ Se quiser sobreviver”

“Disse o falso sertanejo que a viola já era/ Os amigos da panela se fecharam numa esfera/ Sem a benção da viola nenhuma moda prospera”

Apesar de não haver nenhuma indisposição entre duplas e estilos, é nesse embate “tradição versus novo” que reside a aposta de quem segue por esse caminho.

Ainda se ganham espaço nesse meio mais “bruto”, apesar de transitarem bastante no que se chama de sertanejo “moderno”, nomes como Jads e Jadson, os brasilienses Pedro Paulo e Matheus, que já tocam nas principais rádios dos grandes centros, e Munhoz e Mariano, mais uma dupla da interminável safra de Campo Grande, que recentemente esteve no programa do Faustão e começa a ganhar nome das festas pelo país.

*Em tempo: Tião Carreiro, ao lado de Lourival dos Santos, é o inventor do “Pagode de Viola”.

___

No próximo texto sobre o tema, os caminhos distintos que as duplas estão seguindo, tentando prever o que vem pela frente. Quem puder, vale a pena escutar os recém-lançados CD’s de Victor e Leo, Jorge e Mateus e Bruno e Marrone, ambos sintomáticos.

Comente!

___

17 Comments

  1. Na trilha de tiao carreiro.. Slap-up :)

  2. Na trilha de tiao carreiro.. Slap-up :)

  3. Vou começar usando um recorte do seu texto Hermes, onde você ironiza a expressão “composições machistas ou de teor intolerante…”, que no meu ponto de vista fala muito do poeta Tião Carreiro sim. Tenho quase todas as composições dele em minha mente, no começo por ouvir muito, mesmo sem gostar, depois por aprender a ouvir , entender, respeitar, gostar, defender, admirar…
    Então falo com tranquilidade, e concluo, não sei se apesar de ou exatamente por isso, ele amava com uma intensidade incrível, como é próprio dos grandes amantes, suas canções falam sobre essa intensa forma de amar… mesmo que às vezes machista às vezes intolerante.

  4. Ademyr Rico Reply to Ademyr

    Cortou meu comentário, Piunti?

  5. Fábio Roque Reply to Fábio

    FALA Piunti!! Feliz aniversário Cara!!! Parabéns

  6. Ademyr Rico Reply to Ademyr

    Me sinto bem qdo posso falar sobre esses ícones da canção brasileira, principalmente a sertaneja, estilo que me identifico um pouco mais. O que nos deixa felizes e ver a safra de rapazinhos e até mocinhas executando solos de viola. Isso mostra que o Tião Carreiro deixou um legado importante para seus súditos. Na época em que somente se falava NELE, poucos violeiros se destacavam,.cada um no seu estilo e jeito. Bambico, Goiano, Almir Satter, Zé do Rancho ( Sogro do Xororó ) e mais um aqui outro alí. Hoje, felizmente o segmento conta com bons violeiros. Conheço um cara em Goiânia por nome artistico Marco Aurélio que debulha a viola caipira com pagodes, querumanas e corta – jacas. Outro, mais clássico porem habilidoso entremeando a viola caipira é Marcos Biancardini, tambem de Goiânia. Tem um garoto com 16 anos em São José do Rio Preto SP por nome Marco Antonio, que faz a gente se emcionar, vendo o tanto que o cara desfila pelo braço da viola com ponteados maravilhosos. Isso lembrando tambem de João Carreiro, Lyan, Marco Viola, Geraldo Viola, Zé henrique, Adão da Viola e muitos outros que encantam este cenário. Certamente seremos felizes com esses gênios que enfeitarão nossos ouvidos e olhos com suas dádivas. Piunti, sua matéria é ótima.

  7. Valeu, legal Marcio… Mas o que eu disse não é uma critíca ao texto. A bronca é justamente, porque com “esse momento” que a Musica Sertaneja esta vivendo seria essa uma oportunidade unica de ir meio na contra-mão dessa frase ( Não se trata exclusivamente de uma tentativa de defender a cultura ou algo do gênero, pois a visão é tão comercial quanto qualquer outra. ) E sim, valorizar, em primeiro plano a “Cultura Tião Carreiro” e se, por consequencia esses novos produtores, empresários e cantores ganharem muito dinheiro com isso… Muito bom e muito bem para todos! E minha opinião é que seria um imenso sucesso, mas por favor, mantendo a essência dos arranjos e das interpretações do Tião! Dar um “ar de batidão sertanejo” aos pagodes seria algo bom, algo atual… é o que estão fazendo os promissores irmãos Mayck e Lyan… Um Abraço!!!

  8. Rafael Dedão ( Urologista ) Reply to Rafael

    Para falar de Tião Carreiro, não são cabeças de bagres como vcs, desculpe. Para falar de Tião Carreiro, é preciso entender de história de música sertaneja, sabedoria musical, solo de viola, arranjos, parcerias, determinação musical, vóz, interpretação, dueto, oitavados, presença, palco, vestimentas e postura musical. Se vcs não souberem tudo isso, calem a boca e aguardem, certamente a teoria musical que vcs vão ler sobre esse gênio, falará. O resto e balela. E tenho dito…

  9. Juro como não entendi o que o Hermes pensou quando leu o post do André porque ele não falou nada de mais sobre nosso saudoso Tião Carreiro , ao contrário ele elogiou e falou do maravilhoso trabalho feito pelo mesmo e que é seguido por João Carreiro & Capataz.
    E que no meu ponto de vista deveria ser seguido por mais duplas ,sinceramente gosto muito de sertanejo , e não querendo desmerecer o “sertanejo universitário” que eu até curto , mais prefiro disparado os nossos pagodes da viola. o sertanejo universitário tem tido uma grande aceitação pelos jovens mais não acho que vá muito longe já que os jovens ouvem bastante, mais não sabem apreciar o passado dessa música que é nosso “sertanejo raíz”.
    Apesar de ser joven gostaria muito de poder ligado o rádio um dia e ouvir mais duplas tocando e seguindo o estilo de Tião Carreiro :D

  10. Aaaah, mas tava na cara que ia rolar um comentario como do Hermes, mas não esperava que viesse dele, que conhece esse espaço há tanto tempo e sabe muito bem que o que foi dito não foi com o intuito de desmerecer. Acho que o novo CD do Mayck e Lyan achou um caminho pro mercado, agora vai dar pra entrar na briga. Torço pra que surja coisa diferente, é fundamenta pro crescimento do gênero.

  11. Matou-a-pau. Viva Tião Carreiro, o maior nome da história, indiscutivelmente. Quanto ao que o Hermes disse, entendo o lado dele, mas o que está escrito é só uma constatação de uma das facetas do Tião, a mais copiada por esse pessoa novol. O teor preconceituoso de algumas de suas letras mais famosas é citado em quase todos os livros que trazem sua biografia. Falo com tranqüilidade sobre isso pq o tenho como maior ídolo.

  12. Não conheci esse TIÃO CARREIRO de “composições machistas ou de teor intolerante…” que você citou ai André !?!?!? O repertório e as composições desse Gênio Da Musica Sertaneja são maravilhosos…! Letras que falam do amor, da natureza, dos problemas socias, da relação de educação entre as pessoas e as famílias… E mais uma vez não cabem as comparações atuais. Coisas que ele contava, escrevia e cantava a 25 ou 30 anos atrás, acontecem agora! Ele foi um simbolo, um visionário, o maior violeiro e o maior nome individual da Musica Sertaneja. Tanto ele quanto sua obra, deveriam ser tratados com mais carinho, respeito e gratidão!!!!

  13. Pedro Henrique Reply to Pedro

    Valiosa postagem, o papel do jornalista é fazer sempre o contraponto e trazer todas as distintas realidades, sem tomar partido por nenhum lado. Viva a democrática musica sertaneja.

Deixe um comentário